Adorable sad little girl looking at the camera

Se é mãe (ou pai) provavelmente já ouviu esta frase “Mamã fiz xixi na cama…”. Na generalidade, as crianças começam a controlar os esfíncteres (i.e., a aprender a fazer no bacio ou na retrete) entre os 2 e os 4 anos de idade (mas atenção: cada criança tem o seu ritmo particular!). Primeiro é adquirido o controlo durante o dia e, mais tarde, o controlo durante a sesta e a noite. Por esta razão a tendência é para deixar as fraldas primeiro durante o dia e, depois – aquando da ausência de descuidos diurnos –, começa-se a tirar as fraldas durante a noite.

No entanto, por vezes acontece algumas crianças continuarem a urinar durante a noite numa idade em que o controlo dos esfíncteres se esperava já ter sido adquirido… Estes são os casos de meninos que acordam durante a noite molhados, tristes (por vezes, com lágrimas nos olhos) e que, cabisbaixos, caminham para o quarto dos pais, e dizem a tão conhecida frase: “Mamã fiz xixi na cama… outra vez… desculpa…”.

Se já alguma vez ouviu falar de Enurese Noturna, é disto que se trata… Importa referir que estes xixis durante a noite são involuntários e não intencionais, pelo que os pais, familiares, educadores e amigos não devem castigar, desprezar ou humilhar a criança.

As causas da enurese noturna podem ser diversas, desde genéticas (por exemplo, havendo história familiar de enurese noturna, a probabilidade de a criança vir a ter é maior), psicológicas (por exemplo, stress, ansiedade, traumas emocionais), fisiológicas (por exemplo, bexiga pequena), até doenças orgânicas (por exemplo, infeções urinárias, parasitoses, espinha bífida ou diabetes). Os maus hábitos de higiene, o treino inadequado da utilização do bacio ou da retrete (demasiado precoce ou tardio), as atitudes agressivas por parte dos pais ou educadores, e a falta de compreensão quando a criança tem um descuido, podem também potenciar ou perpetuar o problema. De salientar que, por vezes, acontecimentos sentidos como traumáticos pela criança podem despoletar a enurese noturna quando já tinha sido antes adquirido o controlo dos esfíncteres e a criança já tinha deixado de fazer xixi na cama. Nestas situações, as causas psicológicas podem ser diversificadas, como sejam o divórcio recente dos pais, situações de violência familiar, a morte de alguém próximo, o nascimento de irmãos, a dificuldade de integração escolar, entre outros.

As recomendações para os pais de crianças com enurese noturna são várias. Primeiro, os pais devem falar com a criança sobre o assunto, devem também deixá-la falar à vontade sobre o que pensa e sente, e apoiá-la, não fazendo dos xixis na cama um drama (que apenas fazem com que os descuidos se agravem!). Os castigos e as humilhações devem ser evitados, uma vez que os xixis são involuntários e não intencionais. Os pais devem também tentar aliviar os sentimentos de culpa da criança e mostrar-lhe que os xixis durante a noite são frequentes e acontecem a muitas outras crianças.

É importante recompensar a criança após as noites “secas” (e não dramatizar as noites “molhadas”). Pode ser útil e motivante para a criança criar um calendário das noites “secas” e “molhadas”, no qual assinala as noites “secas” com um sol e as noites “molhadas” com uma nuvem de chuva. Este registo da evolução das noites “secas” pode deixar a criança mais consciente dos progressos e, por isso, mais motivada e tranquila (o que, por sua vez, vai facilitar a diminuição dos xixis durante a noite).

O uso de fraldas é geralmente desaconselhado (particularmente nas idades dos 3-4 anos), uma vez que pode ter um efeito humilhante para a criança. Porém, e dado o desconforto para as mães da troca e lavagem dos lençóis e da roupa, o uso de fralda pode ser negociado com a criança (salientando as vantagens para a criança e não para os pais!), devendo ser apenas implementado se a criança se sentir bem.

Recomenda-se também o treino dos esfíncteres através de exercícios que promovam a capacidade da criança controlar a urina, nomeadamente, a sua retenção e expulsão. Isto faz-se através de exercícios de interrupção do jacto urinário durante a micção. No início, quando a criança não detém controlo sobre os seus esfíncteres, pode começar-se com um simples exercício de interrupção a meio de cada micção, sendo depois gradualmente introduzido nos exercícios um maior número de interrupções.

Como medidas adicionais, a ingestão de líquidos deve ser reduzida a partir do final da tarde e a criança deve habituar-se a urinar antes de se ir deitar. Pode ser também utilizado um alarme durante a noite para que a criança possa ir à casa de banho, evitando assim um descuido.

Em suma, os xixis na cama são comuns a grande parte das crianças, são frequentes e, na maioria dos casos, nada têm de “anormal”, acabando por se extinguirem espontaneamente. De salientar, no entanto, que para travar e evitar o agravamento da situação é fundamental uma atitude compreensiva e apoiante dos pais, bem como dos restantes agentes educativos.