Ao longo das últimas décadas temos assistido a inúmeras alterações nos papéis sociais e à transformação da posição da mulher na sociedade. Mas, se a emancipação da mulher e a sua inserção no mercado de trabalho, por um lado, tornaram possível conquistar uma situação de relativa igualdade para com os homens; por outro lado, obrigaram ao adiamento do projecto da maternidade, que passou a concretizar-se cada vez mais tarde até aos dias de hoje.

Actualmente, ao mesmo tempo que se incentiva a continuação dos estudos e a profissionalização da mulher, permanece a expectativa da sociedade de que um dia esta venha a desempenhar o seu “principal” papel, o de mãe. Porém, os melhores anos da vida de uma mulher para a construção de uma carreira profissional correspondem também aos melhores anos para a maternidade; e, na generalidade, as mulheres optam pelo adiamento da gravidez, na esperança de um dia alcançarem uma situação profissional estável e favorável à maternidade. Contudo, o adiamento da maternidade e a esperança de alcançar uma situação profissional estável estendem-se, em muitos casos, por tanto tempo que as condições ideais parecem nunca chegar, ou somente chegam quando a gravidez passa a ser de risco.

Em suma, hoje as mulheres confrontam-se com enormes desafios que decorrem da sobrecarga a que estão sujeitas ao terem de conciliar inúmeras tarefas (dentro e fora de casa) e múltiplos papéis (filha, profissional, esposa, mãe, etc.); e ao terem de lidar com as pressões socioculturais para o sucesso nas mais diversas áreas (boa profissional, boa esposa, boa mãe, etc.).

 

A Gravidez, o Parto e o Pós-Parto

A gravidez corresponde a uma fase complexa na vida da mulher, em que ocorrem inúmeras alterações a nível físico, relacional, social e psicológico.

O 1º trimestre de gravidez corresponde ao início da gestação e caracteriza-se pela aceitação da gravidez pela mulher e por aqueles que a rodeiam. Neste período ocorrem discretas alterações corporais, frequentemente acompanhadas por náuseas, vómitos, desejos ou aversão a determinados alimentos, oscilações de humor, aumento da sensibilidade e medo de abortar.

O 2º trimestre é geralmente descrito como o período mais estável em termos psicológicos e caracteriza-se pela percepção dos movimentos fetais e pelo reconhecimento do feto enquanto ser diferenciado da mãe.

O 3º trimestre caracteriza-se pelo desejo de terminar bem a gestação e pela ansiedade resultante da antecipação do parto. Por volta dos 7 meses e meio o feto coloca-se na posição para nascer e no início do 9º mês ocorre um maior aumento do seu peso e volume, assim como um aumento das contracções uterinas. Os dias que antecedem o parto são marcados sobretudo pelo medo da dor, da morte durante o parto (própria ou do bebé), e pelo receio de complicações no parto. São também frequentes as inseguranças e os medos relativos à maternidade que se prendem habitualmente com o saber cuidar do bebé e a capacidade de responder eficazmente às necessidades do mesmo.

Durante a gravidez e no pós-parto, o apoio e a qualidade da relação com o companheiro são particularmente importantes. A presença do pai é de extrema importância, nomeadamente no que se refere ao cuidar da companheira, no acompanhamento da mãe às consultas, exames ou cursos de preparação para o parto, bem como a sua presença durante o parto e a sua participação no cuidar do bebé após o nascimento.

Importa destacar que, ao longo da gravidez e no pós-parto, são frequentes alterações psicológicas em ambos os elementos do casal (mãe e pai), caracterizadas pelo medo, as elevadas preocupações e a instabilidade emocional, para além da alegria. Na verdade, a gravidez e a maternidade/paternidade são marcadas por fortes vivências psicológicas que exigem constantes adaptações por parte do casal. Quando existe excessiva dificuldade nestas adaptações e as mesmas interferem com a harmonia e a funcionalidade do casal, pode mostrar-se benéfico procurar apoio psicológico. Contudo, e apesar dos desafios, a maternidade/ paternidade constitui geralmente uma fase bem sucedida e de grande felicidade para o casal!

 


Artigo publicado na revista Saúde Hoje, Edição 3 (pp. 22-24), 2011. Ver aqui.