A que corresponde hoje ser homem? O que é afinal ser homem hoje, na era dita moderna, em que, se por um lado, ainda se ouve dizer aos rapazes “um homem não chora”, por outro lado, se espera que o homem (adulto) atual seja já mais sensível e expresse as suas emoções?…

Na verdade, pode torna-se algo confuso conciliar as duas visões que temos hoje dos homens: por um lado, uma visão de “macho”, em que o homem se apresenta como duro, insensível, emocionalmente distante e superior; e, por outro lado, uma visão do homem como alguém sensível, como aquele que aparece em qualquer anúncio televisivo onde os seus braços cheios de músculos fortes suportam o corpo frágil de um bebé recém-nascido.

Sem dúvida que as pressões sócio-culturais para a procura de uma nova forma de homem estão hoje muito presentes, particularmente nas sociedades ocidentais. Se, por um lado, se espera que o homem tenha a capacidade de ser forte, duro e de desempenhar o papel de protetor da família; por outro lado, espera-se também que demonstre a capacidade de ser meigo, dócil, sensível e capaz de estabelecer um vínculo emocional com a companheira e os filhos.

Dadas as expectativas sociais e culturais, por vezes ambivalentes e dispares, que se colocam ao homem de hoje, é compreensível que pelo menos alguns homens atuais possam ficar confusos com o que deles se espera… Talvez a maioria pense que um homem deve poder chorar, mas de forma ligeira e contida, sem excessos; deve ser meigo com o sexo oposto, mas também sem “mariquices” exageradas; deve ter uma apresentação adequada, que nem seja excessivamente machista, nem excessivamente efeminada; deve ser um “bom” pai, capaz de sustentar os filhos, mas também de ter prazer em cuidar deles ao dar-lhes banho, mudar as fraldas, etc.

Na verdade parece que a sociedade instrui os homens para que sejam de facto sensíveis e expressem as suas emoções, no entanto, devendo fazê-lo apenas no contexto do seio familiar. Isto porque no contexto laboral ainda se espera que o homem exerça as suas funções de forma segura, firme e sem embaraço ou preocupações excessivas.

A versão do homem tradicional, duro e insensível, parece ainda hoje estar em luta com a versão do homem moderno. Avô, pai, filho e neto, todos eles desempenham o seu papel de homem de forma distinta em resultado das mudanças sociais, culturais e históricas, e das expectativas que a sociedade, a família e o trabalho, têm deles. Assim, o homem dos anos 30 e 40 foi educado para ser um “verdadeiro homem”, duro e insensível, sendo a expressão das suas emoções encarada como uma “mariquice”. Por seu lado, o homem dos anos 50, 60 e 70, era já incentivado a mostrar-se sensível às suas emoções e às dos outros, contudo, não houve um pai que lhes soubesse ensinar como isto se fazia… Por sua vez, hoje não há um tipo único e específico de homem dada a diversidade cultural e histórica, onde várias gerações se cruzam.

…E hoje, tal como não há um tipo único de homem, também não há um modelo único de pai. Tal como a masculinidade, também a paternidade não acontece num vazio, mas dentro de sistemas sociais e humanos. Assim, o papel desempenhado hoje por um pai depende das características e particularidades da relação com a mãe da criança, das expectativas que ambos têm sobre o que é ser “pai”, mas também das mudanças tecnológicas e das expectativas sociais, como é visível no facto de o homem ter passado a fazer parte do processo de preparação para o parto e até de estar presente e envolvido no parto.

Em suma, ser pai nos dias de hoje exige aos homens a entrada num mundo emocional, até agora (ou até há bem pouco tempo) considerado “mundo” das mulheres. Beijar, tocar, pegar ao colo, dar banho, dar de comer, mudar fraldas, são comportamentos que hoje a sociedade, as famílias, as mães e os filhos esperam do pai. Porém, estes comportamentos, ainda muitas vezes vistos como “femininos”, podem constituir uma batalha para muitos homens… Importa contudo lembrar que as emoções sempre foram sentidas pelos homens mais ou menos duros e mais ou menos musculados; expressá-las, expô-las e falar sobre elas, ao invés de manter a aparente dureza e insensibilidade como uma máscara, isso sim é novo, diferente e o que se espera do homem atual e do pai moderno.