A adoção é definida como o processo através do qual uma criança é acolhida no seio de uma família, constituída por um ou mais adultos, que embora não sendo os seus progenitores biológicos, são reconhecidos pela lei como seus pais. Para muitas famílias que viram o seu desejo de serem pais de alguma forma comprometido, a adoção surge como uma possibilidade alternativa de construir uma família. Porém os pais, uma vez envolvidos num processo de parentalidade adotiva, deparam-se com numerosos desafios. Para além das preocupações habituais de qualquer família, os pais adotivos deparam-se com preocupações adicionais particulares à adoção, nomeadamente, lidar com a infertilidade (quando esta motivou a adoção), a incerteza e a ansiedade na transição para a parentalidade adotiva, o stress envolvido no processo de adoção e as dúvidas sobre se, mais tarde, irão contar ou não à criança acerca da adoção? E se sim, quando e como vão fazê-lo?

As primeiras tarefas que se colocam aos pais adotivos consistem em estabelecer uma relação afetiva com a criança e ajudá-la a sentir-se integrada na família. Importa ter presente que deve ser garantida à criança uma família de caráter permanente e definitivo, capaz de lhe proporcionar um ambiente de segurança e proteção favorável ao seu desenvolvimento, que garanta a resposta às suas necessidades de saúde e de educação, mas também às suas necessidades afetivas e sociais.

Quanto à questão de revelar ou não a adoção à criança, importa destacar que o silêncio, como forma de proteger a criança, propicia um clima de vulnerabilidade que pode resultar em insegurança, desconfiança e desilusão. O papel dos pais adotivos consiste, não apenas em estabelecer uma relação afetiva de segurança e confiança com a criança, mas também em criar um clima de reconhecimento dos direitos do seu filho adotivo e um ambiente de suporte a uma adequada exploração das questões relacionadas com a adoção.

Não existe um momento ideal definido para abordar a adoção com a criança e a questão fundamental não é qual o momento ideal para abordar este assunto, mas se os pais são capazes de reconhecer a verdade como um direito da criança e, em particular, como uma necessidade para a saúde psicológica de toda a família.

Devem ser os pais adotivos a revelar à criança a sua condição de criança adotada e mostrar-se abertos para responder às suas questões, dúvidas e anseios. É importante que os pais saibam lidar com a curiosidade da criança em saber mais sobre o seu passado, as suas origens e a sua família biológica; e, saibam lidar com o desejo da criança em procurar a sua família biológica (sem nunca culpabilizar ou denegrir a imagem que a criança possa ter dos seus pais biológicos). Os pais devem, no entanto, abordar este assunto tendo em conta a quantidade de informação adequada e a correta adaptação do discurso ao nível de desenvolvimento da criança, ou seja, às suas capacidades cognitivas e emocionais.

As crianças de idade pré-escolar não têm capacidade para perceber a condição de adoção. A criança pode saber que é adotada, contar a história da sua adoção tal como lhe foi contada pelos pais adotivos, mas ainda não compreende o significado dessa história e das suas implicações. Se a revelação for feita num contexto de segurança e envolta em afeto, não se observam geralmente reações negativas na criança.

As crianças de idade escolar são já capazes de um pensamento reflexivo e analítico, possuindo uma noção mais clara do significado de “família” e sendo já capazes de perceber que ser uma criança adotada implica ter sido aceite por uma família, mas também ter sido rejeitada pela sua família de origem. Esta perceção pode levar a sentimentos de ambivalência e por vezes de revolta, que conduzem a comportamentos diversos desde a agressão ao isolamento, e a depressão. Nestes casos, os pais adotivos devem tentar compreender os sentimentos da criança e ajudá-la a ultrapassar as suas inseguranças, anseios e receios.

Durante a adolescência as capacidades cognitivas e sociais aumentam, dá-se a construção da identidade, e os sentimentos de perda e de rejeição podem ser sentidos de forma mais profunda e dolorosa. Os pais devem ter presente a dificuldade acrescida dos seus filhos adotivos, durante a adolescência, em construir a sua identidade e devem ser capazes de garantir o apoio necessário e adequado às suas necessidades.

Por fim, e indo para além das particularidades envolvidas na parentalidade adotiva, importa descansar os pais adotivos de que muitos problemas nos relacionamentos entre pais e filhos adotivos estão presentes, da mesma forma, nos relacionamentos de pais e filhos biológicos… Existe alguma relação perfeita?! E o que seria uma relação “perfeita”?! Todas as famílias, biológicas ou adotivas, têm problemas… O mais importante não é não ter problemas, mas saber como lidar com eles…

 


Artigo publicado na revista Papas & Bebés, Edição de Março de 2011. Ver aqui.