Nos dias de hoje, somos frequentemente confrontados com notícias sobre situações de violência nas escolas. O fenómeno não é recente, mas agora as conhecidas e divulgadas consequências e efeitos negativos dos actos de violência para o desenvolvimento e saúde mental dos jovens envolvidos, estão a tornar este um problema actual e uma realidade que preocupa muitos pais, crianças, adolescentes, professores e psicólogos…

Mas porque falamos de Bullying? Pela dificuldade de tradução desta palavra para a língua portuguesa, utiliza-se geralmente o termo original (em inglês) – bullying – para designar um padrão de comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos, que são executados com o objectivo de provocar danos ou mal-estar a outro indivíduo. Estes comportamentos agressivos podem ser físicos, verbais, psicológicos e/ou sexuais; e são praticados dentro de uma relação de poder desigual na qual um indivíduo (ou vários) – o(s) agressor(es) – tenta controlar e sente satisfação em infligir danos a outro(s) – a(s) vítima(s) – sendo esta considerada pelo agressor um alvo fácil e mais fraco, seja por uma questão física, mental, social, emocional ou uma combinação destas.

Actualmente sabe-se que podem constituir importantes factores de risco para a manifestação do bullying os factores económicos, sociais e culturais, os aspectos inatos de temperamento e as influências familiares, de amigos, da escola e da comunidade. Os estudos neste campo têm mostrado inclusive que os meios de comunicação social têm contribuído largamente para o aumento do fenómeno de bullying.

Na verdade, não precisamos de estar muito atentos para perceber que são inúmeros os programas, anúncios, novelas e séries televisivas (dirigidos a crianças e adolescentes) em que os comportamentos de bullying são elogiados e admirados. Crianças e adolescentes aprendem, assim, que podem “safar-se” e até tornar-se populares na escola (“Sou o valentão da minha escola!”) através da violência para com os pares. Não devemos esquecer ainda a influência dos jogos de computador, letras e vídeos de música com conteúdo violento, a que as crianças e os adolescentes estão expostos diariamente.

Os resultados das investigações sugerem ainda que os pais que recorrem frequentemente à violênciaeducam inadvertidamente os seus filhos a praticarem-na com os outros. De facto, sabemos que a forma como os pais resolvem os conflitos entre si e com os outros serve de modelo para os filhos. Por exemplo, se um dos pais é geralmente o vencedor e o outro o derrotado, no que toca a argumentos, as crianças podem aprender a identificar-se com um ou outro, tornando-se assim potenciais agressores ou vítimas.

A desestruturação familiar, o pobre relacionamento afectivo, a disciplina inconsistente, o excesso de tolerância ou de permissividade, as práticas educativas punitivas e rígidas, os castigos físicos e a prática de maus-tratos físicos ou verbais por parte dos pais, podem ainda contribuir para o desenvolvimento de comportamentos debullying.

As novas tecnologias de informação e comunicação têm, mais recentemente, contribuído para o aumento de uma nova forma de bullying, conhecida por cyberbullying. Às novas tecnologias juntam-se agora novas formas de violência e agressão. De facto, são cada vez mais numerosos os casos em que crianças são ameaçadas através de emails ou mensagens de telemóvel, em que se espalham rumores ou fotografias embaraçosas sobre elas em sites da Internet, fóruns, redes sociais ou entre caixas de correio electrónico.

O bullying pode ser classificado como directo, quando as vítimas são atacadas directamente – por exemplo, ofensas verbais, agressões físicas, ameaças, roubos, etc. (sendo estes comportamentos mais frequentemente adoptados por crianças e adolescentes de sexo masculino) –, ou indirecto, quando as vítimas são atacadas indirectamente – por exemplo, atitudes de indiferença, exclusão, difamação, etc. (sendo estes mais utilizados por crianças e adolescentes de sexo feminino).

Sabe-se que a maioria dos actos de bullying ocorrem fora da visão dos adultos e que grande parte das vítimas não reage ou fala sobre a agressão a que foi sujeita. Isto leva a que professores e pais tenham pouca percepção do bullying e subestimem a sua prevalência, actuando de forma insuficiente para a redução e interrupção deste fenómeno. A aparente aceitação dos adultos e a consequente sensação de impunidade favorecem a perpetuação do comportamento agressivo.

Quanto às consequências do bullying, ambos agressores e vítimas, estão sujeitos às consequências físicas e emocionais a curto e a longo prazo. Pessoas que sofreram de bullying quando crianças são mais propensas a sofrer de depressão e baixa auto-estima na idade adulta. Por outro lado, os agressores quanto mais jovens forem, maior será o risco de apresentarem problemas associados a comportamentos anti-sociais e à perda de oportunidades (por exemplo, instabilidade no trabalho, relacionamentos pouco afectivos e pouco duradouros) na idade adulta.

 


 Um excerto deste artigo foi publicado na revista Saúde Hoje, Edição 2 (pp. 4-5), 2011.