Ao longo das últimas décadas temos assistido a uma mudança no cenário sociocultural com alterações nomeadamente ao nível da organização e estrutura familiar. Se até há umas décadas atrás se esperava que a família permanecesse indissolúvel, independentemente dos seus conflitos, actualmente, com a inserção da mulher no mercado de trabalho, o crescente aumento de divórcios e posteriores segundos casamentos, o cenário parece bem diferente… Já não encontramos um modelo único de família, constituída pelos pais e filhos biológicos, mas um vasto leque de novas configurações familiares.

Nas décadas de 1960 e 1970 o divórcio e a separação dos pais eram considerados eventos traumáticos com graves consequências para os filhos. Esta posição reflectia o ideal da família indissolúvel e a resistência da sociedade da época em aceitar novas configurações familiares. Nos dias de hoje reconhece-se que a separação dos pais implica rupturas e sentimentos de perda e desamparo, no entanto, a perspectiva actual não apresenta, como a anterior, uma “visão” inflexível e determinista das consequências do divórcio.

Actualmente considera-se que os efeitos do divórcio não têm de ser necessariamente adversos e a comprovar isto estão as crianças e os adolescentes que demonstram uma diminuição dos problemas psicológicos após a separação dos pais, ao transitarem de uma situação familiar conflituosa para uma situação mais harmoniosa. Deste modo podemos facilmente compreender que não existe uma relação linear de causa e efeito entre o divórcio dos pais e as consequências negativas nos filhos. Na verdade, inúmeros factores estão envolvidos, podendo conduzir a diferentes desfechos, desde os mais harmoniosos e adaptativos até os mais conflituosos e sintomáticos.

 

As Famílias Reagrupadas

Considera-se uma família reagrupada quando dois adultos se unem para formar uma família, para a qual um ou ambos trazem pelo menos um filho de uma relação anterior.

Termos como “segundo casamento” ou “família reagrupada” estão longe de ser a melhor forma de designar uma nova união, visto que a palavra segundo e o prefixo “re” (“reagrupada”) têm subjacentes a ideia de reformulação e reconstituição que apresentam uma conotação negativa (como se antes existisse uma união mais original ou verdadeira). Deste modo, e ainda que termos como padrasto, madrasta, enteado e meio-irmão façam parte de uma realidade já aceite pela sociedade actual, a família original parece continuar a ser, nos dias de hoje, mais valorizada e considerada como mais legítima do que a família resultante de uma nova união.

O processo de construir uma nova família após o divórcio envolve grande complexidade, visto estarem envolvidos diversos sistemas familiares, novas experiências emocionais e novas tarefas desenvolvimentistas no ciclo de vida familiar.

 

Recomendações

  • Para que a criança possa lidar satisfatoriamente com a separação dos pais, é importante que estes consigam manter uma relação isenta de conflitos após a separação e sejam capazes de distinguir a separação conjugal da função parental;
  • Questões relacionadas com o divórcio, guarda dos filhos, pensão de alimentos, entre outras, devem ser resolvidas e negociadas entre os pais, tanto quanto possível de forma harmoniosa;
  • Os pais devem compreender e apoiar as dificuldades da criança na vivência do processo, concedendo tempo e espaço para a expressão de sentimentos;
  • É importante respeitar o ritmo da criança na elaboração de cada fase do ciclo familiar (i.e., separação, nova união) para evitar a sobreposição de sentimentos e vivências, e promover o fortalecimento de novas ligações;
  • Cada elemento do novo casal deve apoiar a educação dos filhos do parceiro/a, contudo, o papel de pai ou mãe não deve ser substituído pelo novo companheiro/a. Os papéis devem estar bem definidos para que as crianças possam vivenciar os novos relacionamentos familiares de forma harmoniosa e equilibrada;
  • Os pais e os seus novos companheiros devem ajudar as crianças a conviver harmoniosamente entre meios-irmãos. As crianças devem ser tratadas de forma igual, mas o espaço particular de cada uma deve ser respeitado, bem como os seus problemas ou dificuldades individuais;
  • A separação e as novas uniões podem desencadear dificuldades e preocupações em crianças e adolescentes, contudo, a readaptação à nova situação ocorre geralmente após um período de 1 a 3 anos. Se a criança ou o adolescente manifesta dificuldades e sintomas intensos e persistentes recomenda-se a procura de um psicólogo.

 

Para finalizar importa destacar que o bem-estar psicológico da criança não é determinado pelo tipo de configuração familiar, mas sim pela qualidade da relação que os elementos da sua família, original ou reagrupada, estabelecem entre si…

 


Artigo publicado na revista Papas & Bebés, Edição de Abril de 2011. Ver aqui.