Sabia que as preferências alimentares do seu bebé começam a desenvolver-se desde cedo, mesmo antes do seu nascimento? Pois é, estudos indicam que as preferências alimentares começam a formar-se mesmo antes do nascimento, durante a gravidez. No útero materno, através do líquido amniótico que envolve o feto, o bebé vai experimentando uma vasta riqueza de sabores resultantes da alimentação da própria mãe.

Mais tarde, já depois do nascimento, as preferências alimentares continuam a desenvolver-se através da amamentação. Mais uma vez, o bebé vai experimentando novos sabores, mas agora através do leite materno. Sabia que, por exemplo, o sabor do alho, álcool e estrato de baunilha ingeridos por si podem estar presentes no seu leite? É verdade! Através do seu leite, todo um mundo de novos sabores é dado a conhecer ao seu bebé.

Está demonstrada uma preferência inata dos bebés recém-nascidos por sabores doces. Porém, a apetência do seu bebé pelo doce pode diminuir se ele tiver pouco contacto com alimentos doces. Pelo contrário, se o seu bebé mantiver o contacto repetido com este tipo de alimentos, tenderá a desenvolver uma forte preferência pelos sabores doces que poderá manter-se no futuro.

O consumo de leite materno durante a primeira infância, ao contrário do consumo dos leites artificiais mais doces e ricos em sódio, tende a diminuir nos bebés o interesse pelos sabores demasiado doces e salgados. Poderá verificar por volta dos 4 meses uma forte preferência do seu bebé pelos sabores salgados; aos 6 meses esta preferência apenas se mantém se o seu bebé for exposto ao consumo repetido de alimentos salgados; e, por fim, aos 12 meses esta preferência fica estabelecida em resultado da aprendizagem feita através da experiência (isto é, se o seu bebé manteve contacto frequente com alimentos salgados, aprende a gostar dos sabores salgados). Uma vez estabelecida esta preferência durante a primeira infância, ela poderá determinar uma maior apetência por sabores salgados no futuro, inclusive na idade adulta.

A exposição a novos alimentos, mesmo durante o aleitamento materno, aumenta a preferência e a aceitação do bebé por esses alimentos. No entanto, é comum verificar-se a rejeição ou a difícil aceitação de novos alimentos durante as primeiras vezes em que estes são apresentados ao bebé, fenómeno conhecido por neofobia. A rejeição de novos sabores e consistências é muito observada em lactentes (5 – 6 meses) e em crianças de idade pré-escolar (1 a 6 anos), podendo manifestar-se de diversas formas. Por exemplo, a criança evita o contacto com o alimento, protesta e recusa a sua ingestão, observa-o de longe, examina-o atentamente, separa-o no prato, etc. Estes comportamentos desencadeiam conflitos frequentes com os pais, no entanto, são característicos de uma fase normal no decurso do desenvolvimento de qualquer criança.

Dependendo da interacção que os pais estabelecem com a criança durante os momentos das refeições, os comportamentos neofóbicos podem estender-se por um período mais ou menos longo (por vezes, anos!). Se identificar estes comportamentos no seu bebé, lembre-se de que estão relacionados com uma fase normal do seu desenvolvimento. No entanto, ainda que esta corresponda a uma fase normal, os comportamentos de rejeição do seu bebé não devem desencorajá-la de continuar a oferecer-lhe novos alimentos saudáveis. Quanto mais vezes o alimento for apresentado ao seu bebé, maior será a sua aceitação e preferência futura por esse alimento. Estudos indicam ser necessária a apresentação de, pelo menos, 8 a 10 vezes de um mesmo alimento, para que este comece a ser aceite pela criança.

As investigações mostram que os pais são quem mais contribui, consciente ou inconscientemente, para o desenvolvimento das preferências alimentares da criança. Os comportamentos alimentares dos pais servem de modelo (ou “exemplo”) para a criança, influenciando nomeadamente as suas escolhas e preferências por alimentos mais ou menos calóricos. Não obstante, a observação do comportamento alimentar de outras crianças, nomeadamente, irmãos, primos e amigos (por exemplo, em casa, no infantário, creche, escola, etc.) pode também influenciar o desenvolvimento de preferências e hábitos alimentares mais ou menos saudáveis na criança. Isto realça a importância de o seu filho ser envolvido em ambientes familiares e sociais saudáveis dotados de adultos e outras crianças que possam moldar e proporcionar ao seu filho a aprendizagem de uma conduta alimentar saudável e equilibrada.

O contexto emocional e afectivo em que os alimentos são apresentados à criança pode também influenciar as suas preferências alimentares. Os estudos mostram que a atenção positiva de um adulto, quando associada a determinado alimento, leva ao aumento da preferência da criança por esse alimento. Pelo contrário, a ingestão do alimento numa situação de conflito torna este num alimento a ser rejeitado para a criança. Pode dizer-se assim que o contexto emocional e afectivo das refeições pode afectar a relação que a criança estabelece com a comida. Se as refeições estão geralmente carregadas por emoções negativas, é compreensível que a criança não consiga obter prazer no momento das refeições, nem mesmo do sabor dos alimentos. A criança passa a detestar os momentos das refeições ao antecipar que aquela vai ser uma terrível ocasião de tensão e conflito com os pais. Nestes casos é frequente verificar-se a recusa e a oposição à ingestão de alimentos.

Em suma, as preferências alimentares das crianças, embora determinadas em parte por factores biológicos inatos, são também influenciadas por factores sociais, psicológicos e afectivos que interagem durante os momentos das refeições. Estes factores podem afectar a relação que a criança estabelece com os alimentos e influenciar a aquisição de uma conduta alimentar mais ou menos adequada ou saudável.

As minhas recomendações? Torne as refeições em momentos agradáveis e divertidos para o seu filho (logo desde o seu nascimento), proporcione experiências positivas com novos sabores e consistências, prepare refeições coloridas e apelativas, e não se esqueça: dê o exemplo praticando uma alimentação saudável e equilibrada… a melhor maneira de ensinar o seu filho a aprender a gostar de alimentos saudáveis!

 


Artigo publicado na revista Bebé Culinária, Edição Novembro de 2010.