A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a obesidade a epidemia do século XXI e estima que esta doença atinja cerca de 50% da população mundial em 2025. De facto, ao longo das últimas décadas temos vindo a assistir a um aumento assustador das taxas de prevalência da obesidade, sendo este aumento ainda mais significativo na população pediátrica. Segundo a OMS, a obesidade infantil é já a doença pediátrica mais prevalente a nível mundial e constitui um dos mais graves problemas de saúde pública no mundo. Os números são claros: a cada ano surgem mais 400 000 novos casos, a adicionar aos já existentes 45 milhões de crianças com excesso de peso.

No que concerne à realidade desta doença no nosso país, os estudos demonstram que Portugal é um dos países da Europa com maior número de crianças com excesso de peso e obesidade, apresentando uma prevalência que ronda já os 30%, equivalente ao valor registado nos Estados Unidos da América.

A obesidade é uma doença complexa desencadeada particularmente quando existe predisposição genética e estão presentes fatores facilitadores, nomeadamente comportamentos alimentares excessivos e de inatividade física. Desta forma, a alteração dos estilos de vida que tem ocorrido ao longo das últimas décadas, com o aumento do consumo de alimentos hipercalóricos pouco nutritivos e dos comportamentos sedentários, tem contribuído largamente para o aumento da obesidade, particularmente em crianças e adolescentes. Para além do contributo dos fatores genéticos e comportamentais, os fatores ambientais (acessibilidade e disponibilidade de alimentos hipercalóricos, publicidade, marketing, organização dos espaços urbanos, etc.) e psicossociais (depressão, stress, pobreza, etc.) parecem também contribuir para o surgimento da doença.

Muitas complicações associadas à obesidade, outrora registadas apenas em adultos, são agora também encontradas em crianças e adolescentes. De entre as complicações mais comuns associadas à obesidade infantil destacam-se a diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, complicações respiratórias, ortopédicas, gastrointestinais e metabólicas. Embora a realidade e a gravidade destas complicações sejam visíveis e assustadoras para muitos pais, não o são geralmente para a criança. De facto, as consequências mais imediatas e visíveis da obesidade para a criança não são tanto (quanto para os pais) as complicações médicas, mas as complicações sociais e psicológicas resultantes da doença, nomeadamente, a discriminação e rejeição dos pares, a dificuldade em fazer amigos, a diminuição da autoestima e da satisfação corporal, etc.

Os estudos mostram que, de facto, as crianças com excesso de peso ou obesidade são frequentemente alvo de estigmatização e rejeição social, apresentam maior dificuldade em fazer amigos, tendem a isolar-se socialmente e apresentam maior risco de sofrer de depressão. Sentem-se diferentes, desenquadradas e inferiores aos pares, o que contribui para uma fraca perceção de si próprias, uma autoimagem negativa e uma baixa autoestima. A par de tudo isto podem surgir, associadas à obesidade, perturbações do comportamento alimentar, como a perturbação de ingestão alimentar compulsiva, bulimia ou anorexia nervosa. Nos casos mais graves podem ainda ocorrer tentativas de autoagressão ou suicídio.

 

O Papel do Psicólogo no Tratamento

Conhecidas as causas e as consequências (médicas, psicológicas e sociais) do excesso de peso e da obesidade na vida das crianças, são chamados a intervir no tratamento da doença, profissionais de diversas áreas, entre os quais, o pediatra, o endocrinologista, o nutricionista e o psicólogo. Aqui será abordado apenas o papel do psicólogo no tratamento da obesidade infantil.

A contribuição do psicólogo passa por intervir nas complicações psicológicas associadas ao excesso de peso e à obesidade. Desta forma, cabe ao psicólogo ajudar a criança a lidar com o estigma social, elevar a sua autoestima e o seu autoconceito, e trabalhar as questões relacionadas com a imagem corporal. É também tarefa do psicólogo intervir na depressão e nas tentativas de autoagressão ou suicídio, quando presentes. Para isto é importante o trabalho terapêutico não só com a criança, mas também com os pais. Visto que são os pais que melhor conhecem a criança e passam mais tempo com ela, a sua participação ativa na intervenção é fundamental para que possam ser alcançados resultados terapêuticos de sucesso. Ao longo da intervenção, os pais adquirirem estratégias para apoiar e ajudar o seu filho, ao mesmo tempo que recebem, eles próprios, apoio do psicólogo para que consigam lidar da melhor forma possível com a criança e a sua condição médica e psicológica.

Como resultado da intervenção psicológica, a criança aprende a confrontar e resolver de forma mais adequada situações que eram difíceis para si (por exemplo, situações de discriminação social), adquire uma perceção mais positiva acerca de si e do seu corpo, aprende a pensar de forma mais realista acerca das situações, adquire estratégias para superar a depressão e aprende a desafiar e substituir os pensamentos autodestrutivos ou suicidas por outros mais adequados e positivos. Assim e à medida que a criança vai aprendendo a gostar mais de si e a reconhecer que também ela tem qualidades e competências, deixa gradualmente de se isolar dos pares e acaba por perceber que também ela é capaz de fazer amizades, vencer as dificuldades e os medos, e controlar a doença (i.e., a obesidade). Tudo isto encoraja e incentiva os esforços da criança no sentido da perda de peso e faz elevar a sua motivação para o tratamento.

O psicólogo tem igualmente um papel primordial ao nível da intervenção nas perturbações alimentares quando presentes em associação à obesidade. Nos casos de ingestão alimentar compulsiva, bulimia ou anorexia nervosa, o trabalho terapêutico com a criança e os pais é fundamental e indiscutivelmente necessário.

O potencial da intervenção do psicólogo não se esgota, contudo, no contributo que pode dar ao intervir nas complicações psicológicas e sociais, e nas perturbações alimentares que podem surgir associadas à obesidade. O psicólogo, nestes casos, pode ainda dar um importante contributo no campo de tratamento da própria doença (a obesidade). Os estudos realizados neste domínio têm evidenciado a eficácia da Terapia Cognitivo-Comportamental (terapia que visa a mudança de pensamentos e comportamentos no sentido do bem-estar físico e psicológico dos indivíduos) na promoção da perda de peso e da sua manutenção sustentada a longo prazo. Nos casos de obesidade infantil, a intervenção é realizada com ambos, a criança e os pais; e o psicólogo recorre à terapia com o objetivo de promover o desenvolvimento de estratégias e competências facilitadoras da mudança dos comportamentos alimentares e de atividade física da criança. Nos casos em que a criança é muito pequena, a intervenção é efetuada apenas com os pais, visto serem eles que detêm o total controlo dos comportamentos da criança.

Em suma, a Psicologia pode dar um importante contributo para o tratamento e a futura diminuição das taxas de prevalência da obesidade infantil. Apesar disto, e embora a Psicologia seja já uma ciência com longos anos de existência, em Portugal só recentemente começaram a ser reconhecidas as potencialidades da Psicologia, nomeadamente na promoção da mudança sustentada de comportamentos para o tratamento, com sucesso, de condições médicas como a obesidade. Desta forma, cada vez mais o psicólogo é chamado a intervir nestes casos e solicitado para integrar programas de intervenção e de promoção da saúde… A saúde e a doença não são meramente o resultado de eventos biológicos, mas sobretudo o resultado dos comportamentos de cada indivíduo e importa lembrar que sem a mudança sustentada de comportamentos a longo prazo, dificilmente alguma forma de tratamento da obesidade conseguirá produzir resultados de verdadeira eficácia… Neste campo, a ciência que se dedica ao estudo – compreensão, explicação e mudança – do comportamento humano, ou seja, a Psicologia, pode dar importantes respostas e contribuir para resultados de maior sucesso ao nível do tratamento.

 


Artigo publicado na revista Papas & Bebés, Edição de Fevereiro de 2011. Ver aqui.